Valsa do Asfalto e da Terra
Quando cada passo queria estar em um lugar
passo um: caos
Sentado ao meio dos nóias, encontrei minha calma.
A psicodelia era mais alta que os pássaros, silenciados não pela ausência,
mas pela disputa sonora.
Na cidade, até o canto natural precisa ceder.
E nesse ruído paradoxal, descansei.
O jazz, o blues, a pressa dos transeuntes:
um balé involuntário da urgência que me envolve.
Aqui, viver é correr para não ser engolido.
Aqui, até o silêncio custa e mesmo assim me encontro.
passo dois: lembrança
Penso no interior.
Cheiro de grama recém cortada.
Petricor subindo do chão.
O mugido da vaca,
ritmo que não se curva à lógica da produtividade.
No campo, o tempo não se mede em boletos,
mas em estações.
O relógio é o sol, a lua, a cigarra.
A urgência não existe.
Ou melhor, a urgência é viver devagar.
passo tres: reflexão
Na cidade, cada esquina é propaganda.
O consumo dita os compassos do dia,
e até o silêncio parece ter patrocínio.
Mas nem tudo é vazio.
A cidade abre portas:
a cultura chega rápido,
há encontros inesperados,
há diversidade que não caberia num vilarejo.
Só que esse excesso também cansa,
porque tudo vem filtrado,
curado por quem lucra com nossos desejos.
O campo, em sua simplicidade, também cobra.
Mosquitos, isolamento, a falta de espetáculo.
A criatividade ali é resistência,
porque o tédio exige invenção.
As trocas são menos numerosas,
mas quando acontecem, ganham profundidade.
Ainda assim, há momentos em que a repetição pesa,
como se a vida se resumisse a ciclos iguais.
Aqui, no asfalto, os laços são muitos, mas frágeis.
Lá, na terra, são poucos, mas pesam como raízes.
Um me oferece abundância, outro me oferece permanência.
E eu sigo sem saber qual peso quero carregar.
passo quatro: entre-lugar
Quero o festival inesperado na praça,
mas também a varanda onde cigarras não competem com buzinas.
Quero reclamar da pressa urbana,
mas também das picadas de mosquito na canela.
A cidade me dá abundância, mas me rouba fôlego.
O campo me dá sossego, mas me rouba horizonte.
Não sei se o interior é destino ou só intervalo,
nem se a cidade é escolha ou só inércia.
Sei é que preciso de ambos.
Um para florescer,
outro para enraizar.
Assim danço, entre o asfalto e a terra,
sem escolher um palco definitivo.
A vida tem que ser
de menos conclusão
e mais movimento.
E viver plenamente é abraçar a incerteza
sabendo que não importa a escolha,
a vida vale ser vivida.

