Sombra na Chuva
um vulto que só aparece quando a alma desacelera
terno escuro
chapéu inclinado
guarda-chuva encharcado
parado numa esquina qualquer
bem no momento em que o dia dá seu último suspiro
não anda
não fala
não pisca
mas tudo ao redor parece...
suspenso
parado
como se o ar temesse perturbar
a primeira vez que vi
culpei o cansaço
chuva demais
alma de menos
mas depois...
outras ruas
outros anos
e ele
sempre sob o mesmo céu
minha irmã viu
minha esposa riu
até o dia em que ele acenou
foi só um gesto
mínimo
como quem reconhece
como quem lembra de mim antes de mim
desde então
sempre que volto pra Canela
baixo o farol
desacelero a alma
e escuto a água no asfalto
fico esperando
pra ver
o que não quero perceber
eu realmente gostaria que fosse um conto criado da minha imaginação, mas durmo essa noite com ele em minha mente

