Menevizinho
Quando escrevi sobre rios que somem de vista,
não sabia que o rio ia dobrar a esquina
e parar bem do lado de casa.
O sonho ainda é de cigarra e varanda,
de mato que coça a pele,
de tempo que não se mede em boleto.
Esse não mudou.
Mas o que mudou foi isso:
numa semana, duas vezes,
você estava ali antes que eu pedisse.
A ferramenta certa,
a hora certa,
o chá servido sem cerimônia
enquanto eu ainda estava tentando entender
o tamanho da mudança que estava fazendo.
Não é o barulho da cigarra que embala nossas conversas agora.
É o barulho da rua movimentada,
o motor que acelera lá fora,
o vizinho lomba acima,
a cidade inteira funcionando ao redor.
E está tudo bem.
Às vezes o interior não é um lugar.
É uma presença que sabe ficar quieta
mesmo no meio do barulho todo.
Mesmo que precisemos de vidro duplo pra escutar os pensamentos.

